"Sem filosofia, os pensamentos são (...) enevoados e indistintos; a sua tarefa é torná-los claros e dar-lhes limites definidos." Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A dimensão pessoal e social da ética – o si mesmo, o outro e as instituições

O homem é uma construção continuada e é nesse processo que adquire consciência moral, o que o torna pessoa, isto é, um sujeito moral.
         A formação do homem enquanto sujeito dotado de consciência moral exige uma indissociável relação consigo mesmo, com o outro e com as instituições.

O eu e o outro
         Neste processo evolutivo, o querer individual defronta-se com o querer do outro, isto é, as necessidades, impulsos e desejos pessoais deparam com um dever-ser, construindo e ditado como ideal pela sociedade e estatuindo nos seus códigos, Instala-se, assim, um conflito entre aquilo que cada um deseja e aquilo que lhe é socialmente exigido. É na resolução destes conflitos que o ser humano vai interiorizando os padrões e normas de conduta e experiencia os valores sociais reinantes.
         Se a vivência do conflito faz nascer o sentido da sua liberdade, a sua resolução, com a interiorização de normas e valores, dá-lhe a consciência do seu eu social.
         Com o estabelecimento da noção de dever, a consciência de si adquire uma dimensão moral que lhe faculta a competência para formular juízos de valor, segundo os quais os objectos, as situações, as pessoas, as ocorrências não são meros factos, antes realidades apreciadas como boas ou como más. A construção do sujeito moral não é uma tarefa que cada um possa efectuar sozinho. Os progressos conseguidos na auto-realização devem-se à presença do outro com o qual nos identificamos e no qual nos revemos. Ao motivar e condicionar muitas das nossas acções, o outro construi-se como agente formador imprescindível, como o verdadeiro edificador do nosso eu.

O eu, o outro e as instituições
       Levar uma vida saudável sob o ponto de viste ético é um questão pessoal, dizendo respeito ao eu, a cada um de nós, ao modo livre e consciente como agimos. Todavia, porque os nossos actos se repercutem nos outros, a ética é também uma questão social.
         Temos vindo a falar do outro e das relações que com ele estabelecemos, referindo-nos à sociedade, às pessoas em geral com que convivemos e com a ajuda das quais nos vamos constituindo como seres sociais e morais.
         Que formas pode assumir a nossa relação com os outros?
       Duas modalidades: Relação Directa e Relação Indirecta.
       Relação directa:
O outro identifica-se, em primeiro lugar, com aquele com quem o eu convive presencialmente. Os nossos pais, irmãos, outros familiares, amigos, colegas, professores, companheiros de trabalho e habitantes da aldeia ou bairro em que moramos são, assim, pessoas conhecidas que, numa relação face a face com o eu, funcionam como uma segunda pessoa, como um tu com quem o eu confronta sem a presença de intermediários.
       Relação indirecta:
O outro pode assumir uma outra forma em relação ao eu, que determina um relacionamento de ordem diversa. Trata-se de um outro entendido como um terceira pessoa, de um outro que desconheço, mas que eu sei que existe e com quem me relaciono de modo institucional.
O comportamento ético estende-se também a este outro com quem o eu, ultrapassando as relações interpessoais, se relaciona institucionalmente.

Instituições e código moral
         Enquadrando a vida dos homens, as instituições dificilmente estão em desacordo com a vida moral. Elas são, por assim dizer, as guardiãs da moral e bons costumes, exercendo uma acção modeladora, especialmente nas gerações mais jovens.
         Esta tendência para o conservadorismo leva algumas pessoas a encarar as instituições como uma salutar salvaguarda das tradições e ensinamentos do passado, pelo que consideram que o seu papel se torna imprescindível nas várias etapas do desenvolvimento dos indivíduos (na infância, na adolescência e no estado adulto há necessidade das instituições). 
        Outras pessoas evidenciam os inconvenientes das instituições, vendo nelas uma oposição à liberdade individual e ao progresso dos povos. Há riscos inerentes às instituições.
         Estas deficiências serão inexistentes se as instituições permitirem às pessoas desenvolver as suas potenciais capacidades. Isto verifica-se quando as instituições têm o condão de proteger e permitir que a pessoa cresça, em vez de a atrofiar. Verifica-se também quando as pessoas sentem a necessidades das instituições, em vez de simplesmente as suportar.
        Entre a vida moral e as instituições verifica-se um relacionamento recíproco. É que, por um lado, a vida moral é garantida pela presença social das instituições, que despertam e desenvolvem a consciência moral, por outro, a vida um comum é que gera as instituições, que passam a fazer parte do contorno moral em que vivem as pessoas.
Jennifer Juliana

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