"Sem filosofia, os pensamentos são (...) enevoados e indistintos; a sua tarefa é torná-los claros e dar-lhes limites definidos." Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Argumentação - Exemplo de texto para trabalhar

Atenção a este texto de Pedro Abrunhosa...

A contínua hostilização aos professores feita por este, e outros governos, vai acabar por levar cada vez mais pais a recorrer ao privado, mais caro e nem sempre tão bem equipado, mas com uma estabilidade garantida ao nível da conflitualidade laboral. O problema é que esta tendência neo-liberal escamoteada da privatização do bem público, leva a uma abdicação por parte do estado do seu papel moderador entre, precisamente, essa conflitualidade laboral latente, transversal à actividade humana, a desmotivação de uma classe fundamental na construção de princípios e valores, e a formação pura e dura, desafectada de interesses particulares, de gerações articuladas no equilíbrio entre o saber e o ter.
O trabalho dos professores, desde há muito, vem sendo desacreditado pelas sucessivas tutelas, numa incompreensível espiral de má gestão que levará um dia a que os docentes sejam apenas administradores de horários e reprodutores de programas impostos cegamente.
O que eu gostaria de dizer é que o meu avô, pai do meu pai, era um modesto, mas, segundo rezam as estórias que cruzam gerações, muito bom professor e, sobretudo, um ser humano dotado de rara paciência e bonomia. Leccionava na província, nos anos 30 e 40, tarefa que não deveria ser fácil à altura: Salazar nunca considerou a educação uma prioridade e, muito menos, uma mais-valia, fora dos eixo Estoril-Lisboa, pelo que, para pessoas como o meu avô, dar aulas deveria ser algo entre o místico e o militante.
Pois nessa altura, em que os poucos alunos caminhavam uma, duas horas, descalços, chovesse ou nevasse, para assistir às aulas na vila mais próxima, em que o material escolar era uma lousa e uma pedaço de giz eternamente gasto, o meu avô retirava-se com toda a turma para o monte onde, entre o tojo e rosmaninho, lhes ensinava a posição dos astros, o movimento da terra, a forma variada das folhas, flores e árvores, a sagacidade da raposa ou a rapidez do lagarto. Tudo isto entrecortado por Camões, Eça e Aquilino.
Hoje, chamaríamos a isto ‘aula de campo’. E se as houvesse ainda, não sei a que alínea na avaliação docente corresponderia esta inusitada actividade. O meu avô nunca foi avaliado como deveria. Senão deveria pertencer ao escalão 18 da função pública, o máximo, claro, como aquele senhor Armando Vara que se reformou da CGD e não consta que tivesse
tido anos de ‘trabalho de campo’. E o problema é que esta falta de seriedade do estado-novo no reconhecimento daqueles que sustentaram Portugal, é uma história que se repete interminavelmente até que alguém ponha cobro nas urnas a tais abusos de autoridade.
Perante José Sócrates somos todos um número: as polícias as multas que passam, os magistrados os processos que aviam, os professores as notas que dão e os alunos que passam. Os critérios de qualidade foram ultrapassados pelas estatísticas que interessa exibir em missas onde o primeiro-ministro debita e o povoléu absorve.
(…)
Pedro Abrunhosa

DESAFIO: 1- Em aula vão ter este texto desorganizado e em três grupos terão que conseguir encontrar o sentido do texto... organizá-lo. Como? Usando o pensamento e as suas várias funções...
2- Qual o tema do texto? Qual a tese? Quais os principais argumentos?

2 comentários:

Anónimo disse...

Quando na aula disseram que os tetraplegicos eram infelizes, este caso pode não ser de um tetraplegico
mas vejam e aprendam com isto ;)

http://www.youtube.com/watch?v=gf3R_6KDf00



Nuno

Anónimo disse...

Tema: O Ensino em Portugal



Tese: Pedro Abrunhosa é contra a privatização do ensino e contra a gestão do ensino em Portugal



Principais Argumentos:

· O ensino privado é mais caro e nem sempre está tão bem equipado quando comparado com o ensino público;

· A privatização do ensino leva a uma abdicação por parte do estado do seu papel moderador entre a conflitualidade laboral latente, transversal à actividade humana, a desmotivação de uma classe fundamental na construção de princípios e valores, e a formação pura e dura de gerações articuladas no equilíbrio entre o saber e o ter;

· O governo não dá o devido valor ao trabalho realizado pelos professores;

· O governo gere mal o ensino público, o que levará a que um dia os professores sejam apenas administradores de horários e reprodutores de programas impostos cegamente;

· Os professores não são avaliados correctamente, ou seja, a avaliação dos funcionários da função pública beneficia certas pessoas de cargos ‘’importantes’’;

· Acusa o estado de falta de seriedade e de abuso de autoridade;

· Perante José Sócrates o povo português é apenas um número;

· Os critérios de qualidade foram ultrapassados, pois para este governo o mais importante é as estatísticas que consideram importantes, para poderem exibir e mostrar para todo o mundo que em Portugal está tudo bem.

Andreia Rodrigues