"Sem filosofia, os pensamentos são (...) enevoados e indistintos; a sua tarefa é torná-los claros e dar-lhes limites definidos." Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus

domingo, 3 de outubro de 2010

Este é o poema que fazia parte do vosso "teste diagnóstico" (mas só vos dei uma parte, aqui está quase todo...)

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
(...)

Fernando Pessoa

Desafio: Enviem-me as vossas reflexões sobre este poema.

3 comentários:

Unknown disse...

Reflexão sobre o Poema

Este poema faz-nos reflectir sobre quem realmente somos na realidade.

A partir do poema apercebemo-nos que estamos em constante mudança e que nem sequer sabemos quando é que mudamos. Daí podermos afirmar que não nos conhecemos a nós próprios.

Apesar de, tal como o autor, por vezes tentarmos encontrar respostas às questões sobre quem somos e quando é que mudamos, muitas vezes não obtemos respostas, ou então, encontramos ainda mais questões.

Há momentos em que cada um de nós, só usa a parte racional, portanto somos só razão. Esses momentos ocorrem precisamente, quando estamos a reflectir, por exemplo, à noite quando já estamos deitados, começamos a pensar em tudo o que aconteceu naquele dia e em todas a coisas que nos inquietaram. Esta inquietação só acontece porque todo o ser racional tem pensamento, logo está sempre à procura de mais respostas às suas questões, dúvidas e inquietações, por isso nunca está satisfeito com os resultados ou com as respostas que obtém.

O Homem é um animal racional. É animal porque tem necessidades básicas, como comer e beber; é racional porque tem pensamento, raciocina. A parte racional (razão) deve prevalecer sobre a parte “animal”.

Outro aspecto importante do poema é termos a consciência que nem sempre o que vimos é igual ao que sentimos, isto quer dizer que, podemos ver uma coisa perfeitamente banal, mas depois surgem dentro de nós uma série de questões à cerca daquilo que vimos. O ser humano é atento, portanto vê e analisa tudo o que está à sua volta.

Todos nós temos uma opinião sobre nós mesmos, mas de certeza que as outras pessoas nos vêem de outra forma, ou seja, há sempre diferença entre a maneira como nós nos vimos e como os outros nos vêem.

Todas as pessoas sonham e têm desejos, sempre que isso acontece, foi porque alguma coisa nos suscitou curiosidade e inquietação, que nos fez pensar nela e que nos levou a querer tê-la ou alcançá-la, seja ela um bem-material ou um objectivo a atingir. Ou seja, com isto pretendo dizer que quando sonhamos ou desejamos algo, não fomos nós próprios que quisemos que isso acontecesse, mas sim porque alguma coisa nos inquietou e despertou à atenção, fazendo com que reflectíssemos sobre ela.

Muitas vezes, andamos tão ocupados que nem damos pelo tempo passar, e quando paramos e olhamos em volta o tempo passou, nós mudamos e nem nos apercebemos.

Podemos concluir que ao longo da vida estamos em constante descoberta de nós mesmos, como o autor diz, é como ler as páginas de um livro, talvez seja o livro onde está escrita a nossa vida e a resposta para a questão de quem é que somos realmente.

Quando comparamos a nossa vida às páginas de um livro, verificamos que não podemos prever o futuro, mas que também não podemos regressar ao passado, pois ele já não volta mais.

Depois de reflectirmos sobre todas estas questões, quem somos, quando é que mudamos e sobre a nossa vida, podemos ficar a conhecermo-nos mais um bocadinho apesar de nunca termos a certeza de que as nossas conclusões estão certas.

professora Paula Silva disse...

Muito bem.
Parabéns pela reflexão e pela coragem de publicar aqui.

Anónimo disse...

Este poema provoca sentimentos e levanta questões que muitos de nós já sentimos e perguntámo-nos a nós próprios, mas que dificilmente conseguimos responder, pois são questões para as quais não existem soluções, mas apenas respostas subjectivas.
No poema, o poeta faz-nos reflectir sobre muitas questões pertinentes. Afinal, quem somos ou quantas pessoas já fomos? Talvez muitas, pois estamos constantemente a mudar. Muitas vezes não nos apercebemos dessas mudanças, pois estamos demasiado ocupados com as preocupações do nosso dia-a-dia e não reflectimos com suficiente racionalidade. Às vezes só percebemos que mudámos quando fazemos coisas de que nos arrependemos, ou fazemos algo que acharíamos impossível alguma vez fazermos.
Ninguém se conhece totalmente nem ninguém conhece os outros totalmente. Podem passar-se vinte e trinta anos, mesmo passado tanto tempo é errado dizermos que já conhecemos uma pessoa totalmente, se não nos conseguimos descobrir a nós próprios durante toda a nossa vida, como é possível dizermos que conhecemos muito bem outra pessoa? Para não falar que a forma como os outros nos vêem não é a forma como nós nos vemos a nós próprios. Somos todos diferentes e o ser humano é muito complexo.
Como seres racionais que somos, quando usamos o pensamento com concentração e profundidade, questionamo-nos, somos curiosos, espantamo-nos, por isso não temos calma, pois vão sempre surgir mais e mais dúvidas que nos inquietam e atormentam, somos um ser complexo e incompleto, por isso sentimo-nos sempre incompletos. Tentamos encontrar respostas a perguntas que fazem sentido, mas que são muito complexas, como por exemplo, qual é o objectivo da nossa existência neste mundo?, por que existimos?, como poderemos ser felizes?.
Parece que nunca estamos suficientemente felizes. A vida é feita de momentos felizes e de momentos menos felizes, são eles que nos fazem crescer e aprender mais, no entanto parece que existe sempre um vazio que nunca desaparece. Falta sempre qualquer coisa…
Muitas vezes o que vemos não é o que realmente sentimos. Vemos a pobreza, a guerra, as crianças doentes, a morte e parece que tudo nos passa ao lado. Nem sequer pensamos que em comparação com essas pessoas que vivem nessas circunstâncias, a nossa vida é perfeita. Quantas pessoas não queriam estar no nosso lugar, a viver as nossas vidas, a ter aquilo que nós temos. Mas natural e necessariamente a vida é pessoal e intransmissível.
A vida passa por nós tão depressa! Todos temos sonhos e desejos que gostaríamos de ver concretizados, alguns deles são impossíveis pois só podem existir na nossa imaginação, outros podem ser concretizados se nos esforçarmos e nunca desistirmos naquilo em que acreditamos. Nós somos a nossa própria paisagem, pois somos nós que assistimos à nossa vida, e ninguém a conhece melhor que nós.
Somos seres que precisamos de estar em convívio com os outros, sem esse convívio a nossa vida não faz qualquer sentido, mas também precisamos dos nossos momentos de solidão para podermos reflectir sobre nós mesmos e sobre os outros.
Somos capazes de fazer o melhor e o pior. Temos a capacidade de nos arrependermos, pedirmos desculpas, ajudarmos as outras pessoas, sermos amigos dos outros, como também somos capazes de matar e magoar os outros.
A vida é como uma história. Nunca sabemos o que vai acontecer a seguir, mas o que passou é passado. Devemos enfrentar a vida de frente e nunca desistir.

Andreia Rodrigues